Política

Camila Toscano e o Peso das Palavras: Respeito Não É Opcional

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A expressão “passado negro”, quando utilizada para associar algo ruim, vergonhoso, criminoso ou indigno, carrega uma construção linguística historicamente problemática, pois vincula simbolicamente a palavra “negro” a ideias negativas. Em uma sociedade marcada por séculos de escravidão, discriminação racial e desigualdade estrutural, esse tipo de associação reforça estigmas e preconceitos que não podem mais ser tratados como “mero detalhe de linguagem”, sobretudo quando a fala parte de uma autoridade pública.

A linguagem não é neutra. Palavras moldam mentalidades, reforçam estruturas sociais e influenciam comportamentos coletivos. Por isso, agentes públicos, especialmente parlamentares, possuem responsabilidade redobrada quanto ao discurso que utilizam. O Brasil possui uma legislação clara no combate à discriminação racial, incluindo a Constituição Federal, que consagra a dignidade da pessoa humana e a igualdade racial como princípios fundamentais, além da Lei nº 7.716/1989, que trata dos crimes resultantes de preconceito de raça ou cor.

Ainda que determinadas expressões tenham sido historicamente naturalizadas, a evolução social exige revisão crítica da linguagem. Persistir no uso de termos que associem “negro” ao negativo revela, no mínimo, insensibilidade institucional e desconhecimento sobre o impacto simbólico das palavras. Quando isso ocorre no ambiente político, o problema se agrava, porque o discurso parlamentar possui alcance social, educativo e formador de opinião.

A deputada Camila Toscano precisa compreender que não se trata de “exagero”, “vitimismo” ou “policiamento de linguagem”. Trata-se de respeito. O mandato parlamentar não concede licença para reproduzir expressões carregadas de estigmas raciais. Ao contrário: exige preparo, responsabilidade e consciência pública. O mínimo esperado de uma representante do povo é que tenha compromisso com uma comunicação compatível com os princípios constitucionais de igualdade e dignidade humana.

O debate não é sobre cancelar palavras isoladamente, mas sobre abandonar construções linguísticas que perpetuam associações discriminatórias. Em pleno 2026, figuras públicas precisam entender que discurso também é prática política. E toda prática política deve ser guiada pelo respeito, pela ética e pela responsabilidade social.

Blog do Alexandre Kennedy

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