Por: Antônia Claudino

Tem momentos que nos pegam de surpresa e tocam fundo. A alma sente, o coração aquece. Foi assim comigo, num fim de tarde simples — desses em que a gente sai para ver o mar e acaba enxergando muito mais.
Caminhava pela orla de João Pessoa quando meus olhos se encantaram com uma cena rara: uma senhora, serena e concentrada, fazia renda renascença ali mesmo, na feirinha. Era ela, Dona Gil, sertaneja das mãos firmes e olhar doce, sentada em sua banca como quem segura a cultura com os próprios dedos.
Sou apaixonada por essa arte. A renda renascença vai além da estética: é memória, raiz, paciência e tradição. E me emocionei ainda mais ao saber que algumas peças levam até um ano inteiro para serem feitas. Um trabalho todo à mão, ponto por ponto, com fios que carregam histórias, silêncios e esperas. Não é apenas renda, é poesia bordada com tempo e fé.
Dona Gil, com sua calma ancestral, mantém viva uma arte que quase se perdeu. E o faz ali, diante de todos, como quem diz com firmeza: “a tradição ainda vive.”
Ela não estava só vendendo. Estava ensinando, preservando, fazendo renascer nas tramas da renda, na paciência das mãos, no orgulho de quem sabe o valor do que faz. Poucos param para ver. Menos ainda para valorizar. Mas eu parei. E saí de lá profundamente tocada.
Dona Gil me deu mais que uma cena bonita me deu esperança. Me lembrou da força das mulheres do nosso sertão, da beleza que ainda pulsa nos cantos do cotidiano, e da importância de olhar com mais amor para o que é nosso.
Comprar uma peça de renda renascença é mais do que um gesto de consumo é um ato de reconhecimento. É ajudar a manter viva uma história bordada à mão.