
João Pessoa acordou nesta semana com uma notícia que mexeu com o coração e a indignação do povo paraibano: o prefeito da capital, Cícero Lucena, embarcou rumo a Santiago de Compostela, em Portugal, em uma peregrinação que, à primeira vista, soa como um gesto de fé, espiritualidade e entrega cristã. Mas, por trás da aura religiosa que o prefeito tenta ostentar, a realidade política mostra um cenário de traição, ingratidão e contradição.
Enquanto pisa em solo europeu em busca de iluminação espiritual, Cícero deixa em sua terra um rastro de desapontamento e perplexidade. O homem que, por décadas, esteve afastado da cena política paraibana, retornou pelas mãos da família Ribeiro e pela confiança do governador João Azevêdo. Foi essa aliança, construída com suor, articulação e confiança, que devolveu a Cícero o protagonismo político e o conduziu duas vezes à cadeira mais importante da capital paraibana.
Mas, ao que tudo indica, a gratidão não caminhou junto com ele até Compostela. Em plena viagem de fé, o prefeito pratica, na vida real, atos que muitos consideram um duro golpe de traição: rompe com os aliados que o reergueram, fecha portas para a família Ribeiro — representada pelo vice-governador Lucas Ribeiro — e vira as costas ao governador João Azevêdo, que sempre lhe estendeu a mão.
É o paradoxo entre a fé pregada e a prática política vivida: de um lado, a imagem do peregrino humilde que busca Deus; de outro, o político que usa da conveniência, da ingratidão e da ambição para conduzir seus passos. Uma contradição que revolta, que expõe a distância entre o discurso de fé e os gestos de poder.
Enquanto carrega o bordão de cristão e devoto, o prefeito deixa no ar a pergunta que ecoa como um grito: de que vale buscar o sagrado nos altares de Compostela, se aqui, na Paraíba, os gestos não traduzem a verdadeira essência do cristianismo — a lealdade, a gratidão e o respeito?
O povo, que acompanha perplexo, já entende que a maior peregrinação de Cícero não se faz em terras portuguesas, mas sim em sua própria consciência. E essa, talvez, seja a mais longa e difícil das caminhadas.
Blog do Alexandre Kennedy